Um Dia é da Caça, Outro é do Paquerador
Por Hugo Fusco Lobo on Mai 3, 2008 | Em crônicas | Enviar comentário »
Acordei. Olhei para o lado: PUTA-QUE-O-PARIU! Eu simplesmente não podia acreditar no que via. Ainda ontem havia sido repreendido por uma amiga pelas coisas que andava fazendo. Eu não era disso, ela sabia bem.
Dessa vez era uma sensação estranha, bateu uma certa insegurança, estava mais acostumado a estar do outro lado, não sabia muito bem o que fazer. Eu havia bebido, mas não tanto quanto minha parceira. Já tinha bebido como ela antes e havia feito coisas piores, muito piores. Afinal, eu não sou exatamente de se jogar fora, mas tudo nessa vida é relativo. Só tinha uma certeza: se eu acordei, olhei para o lado e não me arrependi instantaneamente, havia uma grande possibilidade de que isso acontecesse a ela ao acordar. Minha certeza aumentou ainda mais (seria isso realmente possível?!) quando lembrei que a moça me parecia bem intangível quando a vi. Ah, minha doce e querida mandinga!
Pensei em sair de fininho antes que ela acordasse, mas eu estava na minha casa. Era mesmo a minha a casa? Ou era a dela? Ou era um quarto de motel? Apertei os olhos. Pagaria a conta feliz se fosse o caso (leia Da Putaria). Pensei melhor, resolvi ficar, pagar para ver. Para ela ver. Ver a merda que tinha feito.
O problema de dormir com uma pessoa com a qual não se tem intimidade (entenda-se estranha) são aquelas pequenas idiossincrasias com as quais só ficamos realmente à vontade depois de ganhar uma certa intimidade. Peraí, você acabou de transar com a moça, diria um leitor afoito, você quer mais intimidade que isso?! Falo daquela intimidade, aquela cumplicidade, que só se adquire com a convivência.
O fato é que depois de um dia e uma noite regados a muito álcool, o intestino acorda laborioso, geralmente antes de mim, e trabalhando em alta pressão. Pressão tão alta que não pode ser aliviada de outra maneira que não a ruidosa. Por sorte, não necessariamente cheirosa, mas invariavelmente ruidosa.
Depois de passado o susto inicial e decidido a não fugir da situação, fui lembrado por este inconveniente companheiro que estava chegando a hora de pagar pelos excessos alimentares do dia anterior. E ele fazia questão de anunciar isso em alto e bom som. Se em casa estivesse, ainda que levemente constrangido, daria um pulo no banheiro e resolveria o problema. Num motel, talvez precisasse rezar para não ser um daqueles banheiros de parede de vidro ou para a moça não acordar justo na hora (no meu caso, horas). Mas ainda pior, era a casa dela. E ela não morava só. E não era uma suíte. E me lembrei que na última ida ao banheiro na noite anterior, havia reparado que o papel havia acabado.
– Ó, meu Deus, cobras um preço alto pelas tuas benesses!
Fosse uma moça qualquer, dessas de aparência não muito agradável, talvez eu tocasse o foda-se, mas não era o caso. Não desta vez. Resolvi, também por preguiça de levantar, confesso, controlar o esfíncter de forma a abafar o trabalho de meu mui amigo intestino. Mas era uma senhora pressão, difícil de ser controlada sem muito desconforto e que não me permitiria dormir novamente. Depois de alguns anúncios de mais decibéis que o desejado, resolvi arriscar uma ida ao banheiro, torcendo para que ainda não houvesse ninguém em casa e que houvesse um maldito rolo de papel higiênico extra no banheiro. Dei sorte. O sorriso me voltava ao rosto, afinal, era uma baita gata.
Totalmente insatisfeito com o fato de deixar de ter um papel protagonista na história, meu mui amigo resolveu que desejava apenas expelir os gases. De forma muito, muito ruidosa, diga-se de passagem. Filho da puta, que assim fosse! E eu voltaria logo para apreciar a vista e dormir um sono merecido.
Voltei à cama mais tranqüilo. Aliviado. Dormi um pouco. Acordei com meu genioso amigo querendo mais (me refiro ao intestino, que fique claro).
– Ah, fala sério, puta que pariu, daqui a pouco chega alguém! Ou ela acorda! Debati com meu intransigente carrasco.
Tentei, novamente em vão, resistir um pouco. Resolvi:
– Ok, vou ao banheiro de novo e agora vamos ver quem é que manda nesta merda!
Merda, literalmente. Ou não. Nunca vi (e ouvi) tantos gases na minha vida. Voltei derrotado, mais uma vez.
Dessa vez consegui uma trégua mais duradoura. Tensa ainda, mas mais duradoura. Dormi bem mais algumas horas. Acordamos. Resolvi ir logo para casa, antes que o filho da puta resolvesse mostrar quem é que manda novamente.
Ainda não sei qual foi a reação da moça. Talvez nunca saiba. Na pressa, esqueci de pegar seu telefone ou deixar o meu.
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