Tudo Gente Boa
Por Hugo Fusco Lobo on Abr 16, 2008 | Em crônicas | 2 comentários »
Bolão é uma coisa meio idiota. Se você quer aumentar as suas chances de ganhar menos dinheiro, troque a Mega-Sena pela Loteria Esportiva ou compre uma raspadinha. Mas, enfim, vai explicar isso pra gente que faz o mesmo jogo cinco vezes...
– Viu a Mega-Sena acumulada?!
– Vi sim, vou jogar. Parece que se não jogar, não ganha, né?
– hehehe, é verdade. A galera vai fazer um bolão, tá afim?
– Que galera?!
– A galera aqui da baia, só.
– Hum, sei não, não sou muito de bolão. Quero ganhar sozinho.
– Tudo bem, a gente vai lembrar de você quando estiver tomando Champagne para celebrar.
Filho da puta! Pensei.
Bolão no trabalho é uma sacanagem. É praticamente obrigatória a participação. Já pensou, todo mundo ganhar e você ficar sozinho ali, chupando o dedo? Bolão pequeno então é pior, porque se neguinho ganha, resolve a vida mesmo. Se for todo mundo do trabalho, não me incomodo, no máximo compra-se um apê novo.
– Cinco pilas, né?
– Ah, resolveu participar, né?! Ficou com medo de ficar sozinho aqui atendendo telefonema de usuário orelha, né?!
– Pois é, ainda ia ficar mais puto de ter que consertar as cagadas que vocês deixariam por aqui.
– Cara, a galera vai tomar umas num bar depois do trabalho pra esperar o sorteio.
– Ih, foi adiado por causa da procura. Vai ser só à meia-noite.
– Eita, aí não rola, a galera é toda encoleirada... Putz, quem vai ficar com os jogos?!
Rodrigo, deixando o trabalho de lado, resolveu participar da conversa:
– Você não, que você é bem capaz de fugir com o bilhete premiado.
– hahaha, fujo mesmo! – falou o Dudu, brincando.
– To falando sério, contigo não fica. Retrucou Rodrigo, sério.
Karina também resolveu aproveitar a deixa para parar de trabalhar:
– Ai, gente, que bobagem, até parece que alguém aqui faria isso!
– Minha filha, quando tem 50 milhões em jogo, nunca se sabe o que uma pessoa é capaz de fazer. Comentei.
– E é bem capaz de você perder os bilhetes. Comentou André, que também já tinha abandonado o trabalho para prestar atenção na conversa.
– Como assim?!
Rimos da lerdeza da moça.
– Até parece que eu ia perder os bilhetes! Karina falou ao entender a piada, com cara de poucos amigos.
– Vamos lá, galera, vamos cortar o papo furado e trabalhar – interrompeu Rodrigo – os bilhetes ficam comigo.
– Haha, você é chefe só dos assuntos ligados ao trabalho, pode tirar o cavalinho da chuva! Malcriou-se Dudu.
– Cara, eu queria ganhar essa porra, só pra não precisar agüentar chefia mais. Alfinetei.
– Então a gente deixa os bilhetes numa gaveta aqui, trancados. Sugeriu o André.
– E quem fica com a chave, espertão?!
– Ai, gente, que besteira! Insistia Karina.
O clima já não era nada amistoso. As pessoas realmente desconfiavam umas das outras. O debate rendia. O trabalho esperava.
– Então, vamos todo mundo pra um bar, esperar o sorteio. Eu dou um jeito com a minha esposa. Vaticinou Dudu.
– Por mim, tá tranqüilo.
– Pra mim também. Concordou André.
– Eu não vou, confio em vocês. Disse inocentemente Karina.
– Eu tenho que ligar pra minha esposa. Choramingou Rodrigo.
Acompanhamos, num misto de regozijo, compaixão e constrangimento, enquanto o chefe nos mostrava claramente quem mandava em casa.
– Mas, amor, eu vou voltar cedo... Não, não, vou beber pouco... Mas... Mas tá indo todo mundo... Quando foi a última vez que eu saí sozinho? (...) Ah não, daquela vez não conta, você que não quis ir... Cheguei um pouco só, mas eu não tava dirigindo...
E a prestação de contas durou longos 20 minutos. Ninguém trabalhava, claro. Constrangido, Rodrigo resolveu peitar a patroa:
– Depois eu resolvo isso.
É, isso ia custar caro... Se bem que eu acho que chefe não faz sexo. Não com a esposa, pelo menos.
Fomos ao bar, esperar o sorteio. Noite de pouca conversa. Uns magoados com a desconfiança alheia, outros tensos com a hora, a patroa e o sorteio que não acontecia. A conversa fluía um pouco quando uns ensinavam aos outros como gastar o dinheiro:
– Eu não ia ficar dando dinheiro pra familiar e amigo. É assim que neguinho se fode. Em 6 meses tá pobre de novo porque se dá pra um, fodeu, tem que dar pra todo mundo. Dizia-se.
Saiu o sorteio, já quase uma da manhã. Não ganhamos, claro, e ainda ficamos uma conta de bar mais pobres. Mas tudo bem, pagamos com o trabalho que não fizemos à tarde.
O clima na equipe nunca mais foi o mesmo.
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2 comentários
Abração,
Dudu
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