Odeio Sopa
Por Rodrigo Fusco Lobo on Jun 4, 2008 | Em crônicas | 10 comentários »
Dia destes, depois de receber um já tradicional elogio por um jantar feito por mim, fiquei pensando como o mundo dá voltas e me lembrei da minha primeira experiência como cozinheiro, e como ela me mostrou que saber cozinhar, além de permitir uma alimentação melhor, é muito útil com as mulheres. Talvez seja útil para vocês saber deste caso, então vamos a ele:
Naquela época, eu morava com minha irmã. Mas nos fins de semana ela viajava com o namorado e eu ficava com a casa só para mim. E, para mim, cardápio semanal balanceado significava alternar hambúrguer, cachorro quente e misto quente ao longo dos dias da semana. E jantar caprichado era miojo.
Num sábado qualquer, acabei conhecendo numa balada uma gatinha que era estudante de gastronomia. Seguindo meus instintos básicos, passei a ser imediatamente um profundo conhecedor de gastronomia, quase um chef profissional. Comecei a falar sobre meus dotes culinários. Não chegava a ser mentira, eu apenas chamava o miojo de fusilli, o misto quente de crepe, o hambúrguer de medalhão....No final das contas, acabei conseguindo ficar com a gatinha.
Trocamos telefones, e, na quinta feira, acabamos nos falando de novo. Obviamente eu rezava para o efeito “limpante” do álcool ter feito ela esquecer os meus pseudo-dotes culinários... mas que nada. Ela tocou no assunto. Após breves momentos de pânico ao telefone, acabei achando que esta conversa de gourmet poderia ser uma boa desculpa para fazer a incauta visitar meus aposentos reais. Sustentei a estória e marcamos um jantar na minha casa, no sábado.
Desliguei o telefone e comecei a pensar em como faria. Encomendar uma comida japonesa e fingir que fui eu que fiz não era boa idéia, vai que ela pedia para eu fazer um sushi para ela ver! Se vacilar eu acabava cortando um dedo fora! Não tinha outro jeito, eu ia ter que cozinhar. Porra, tanta analfabeta por aí sabe cozinhar, não é possível que eu não conseguisse também! Comecei a caçar um site de receitas na internet. Achei um que tinha receitas que pareciam bastante sofisticadas. Já que eu ia ter que aprender, resolvi aprender algo que eu gostasse de comer. Escolhi uma panqueca de frango com canela, pois gostava de panqueca e estava classificada como receita fácil. Imprimi a receita e fui dormir.
No dia seguinte, sexta-feira, meio dia em ponto larguei o computador e fui às compras. Tinha 1 hora de almoço, deveria ser suficiente para comprar tudo e comer um sanduíche rápido. Entrei no mercado mais próximo e fui pegando os ingredientes, feliz da vida com a perspectiva de ter uma excelente noite com uma super gatinha. Peito de frango, farinha, ovos, manteiga, etc. Faltava só um ingrediente: sopa de canela. Fui na seção de sopas e não tinha a tal sopa. Que merda, minha hora de almoço ia virar hora e meia, ia ter que ir em outro mercado.
Fui num mercado mais chique desta vez, puto comigo mesmo por ter tido a infeliz idéia de ir num mercado popular para comprar ingredientes de uma receita sofisticada. Cheguei na seção de sopas... que diferença. Tinha um corredor inteiro só de sopas, acho que as dondocas tomam sopa todo dia! Mas quem disse que a porra do mercado, mesmo sendo muito mais caro, tinha a merda da sopa de canela? Nem sinal dela. Tinha sopa de tudo, menos de canela. Resolvi ir numa delicatessen super chique procurar minha sopa. Caralho, minha hora e meia de almoço ia virar duas horas. Chegando lá... nada da sopa de canela. E a atendente ainda me olhou com uma cara de que nunca tinha ouvido falar na tal sopa.
Voltei pro trabalho revoltado por morar no terceiro mundo! Aposto que em Paris deve vender esta porra de sopa até na padaria. Xinguei também o viado do dono do site, que falou que a receita era fácil de fazer, mas não contou que a porra dos ingredientes só existem em algum lugar desses que só quem é cozinheiro profissional conhece! Enquanto tentava me livrar das pendências de trabalho, ficava imaginando como ia contornar a situação. Faltava um ingrediente!
Resolvi ir tomar um café. Chegando na copa, haviam quatro mulheres da empresa lá, batendo papo (E eu preocupado porque tinha tirado 1 horinha a mais de almoço... como eu era tolinho!). Pela velocidade com que interromperam o assunto, estavam falando de homem. Como eu já tinha empatado mesmo a fofoca, resolvi ver se alguma delas sabia onde eu podia conseguir a maldita sopa. Contei a estória e elas me olharam com uma cara de quem nunca ouviu falar da tal sopa também. Cambada de suburbanas, pensei. Uma delas me perguntou da receita. Eu estava com ela dobrada no bolso da calça, usei a própria receita como lista de compras. As quatro se juntaram para ler a receita.
De repente, as quatro começaram a rir. E não paravam. Comecei a rir também, mesmo sem estar entendendo a graça. Depois de alguns segundos, comecei a entender que elas não estavam rindo comigo, estavam rindo de mim! Caralho, o que eu fiz desta vez? Será que li as instruções errado? Não é possível, li e reli várias vezes a receita. E nada das malditas pararem de rir. Duas delas já tinham até sentado para poder rir melhor, e uma terceira tava com cara de quem já está se segurando para não mijar nas calças. A quarta, que era uma gordinha, era mais simpática, e resolveu me explicar.
Abriu uma gaveta e me mostrou os talheres. Perguntou se eu sabia o nome de 3 deles. Caracas, esta balofa pensa que só porque come sorvete o dia todo, só ela sabe os nomes das coisas? Já tava ficando puto com aquele monte de histéricas rindo sem parar, mas respondi de forma bem simpática: Colher pequena, média e grande, ué! Os risos aumentaram. Uma delas caiu da cadeira. O pessoal da empresa toda já estava vindo até a copa para ver o que tava rolando. Acho até que uma delas se mijou nesta hora. Aí a gordinha simpática me explicou que a colher pequena também é conhecida como de café, a média como de chá, e a grande como de Sopa. E que a receita dizia “2 colheres de sopa de canela”, e que isso significava 2 colheres grandes de canela em pó...
Obviamente fui zoado por meses por causa deste pequeno erro de interpretação de texto, mas pelo menos canela em pó eu tinha em casa. Fiz a receita para a gatinha. Ficou horrível, absolutamente intragável. Tive a presença de espírito de bancar o honesto e dizer que era a primeira vez que eu fazia um jantar, e aproveitei para contar toda minha aventura com a “sopa”. Uns 30 minutos depois, quando ela conseguiu parar de rir, consegui voltar a dar uns beijos, e ela acabou conhecendo os aposentos reais mais tarde. Como nem sempre a sorte vai estar assim do meu lado, resolvi aprender a cozinhar. Facilita bastante o processo de “City Tour” aos aposentos reais.
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10 comentários
Um amigo em uma aventura parecida, falou que era professor de dança. Na semana seguinte estava dando aula em uma academia...
A diferença é que neste caso o rapaz saiba danças.
kkkkkkkk
Malu, assim que casamos, se meteu a fazer um pudim, desses comuns, de leite condensado, etc.....
Na receita estava 1 L de leite condensado....Meteu um litro de leite de leite condensado e nada do pudim assar no forno....
Três horas depois de forno ligado e o pudim ainda tava mole......
Acabou desistindo, frustrada...Depois perguntou para a irmã que havia passado a receita o que tinha feito de errado.
Descobriu que 1 L era a medida de uma lata de leite condensado de leite comum.....
Nunca mais precisou consultar a receita pra fazer o pudim....
Bjs....
Laercinho
Sempre me acontecem coisas parecidas.
Você conhece o cara, ele te conta milhares de histórias incríveis sobre seus dotes intelectuais, culinários e esportivos ou até mesmo sobre aquela viagem inesquecível à Patagônia ou à Asia, aí você fica com ele e depois de algum tempo de "rolo" descobre que as coisas não eram bem assim.
Vocês homens devem tomar cuidado com as mentiras que contam para a mulhers na hora de conquistá-las e levá-las para a cama, afinal "mentira tem perna curta".
Beijos!!
Aos poucos ele (tenho vergonha de dizer que é meu irmão) vai aprendendo a arte da concisão.
Até que seu irmão escreve direitinho (rs) e este texto até que ficou curtinho.
O talento deve ser de família.
Adoro os textos de vocês.
Beijos!
É coisa de família, certeza!
Como estou interessado na técnica "comida-na-cozinha comida-no-quarto", vou ficar atento quando aparecerem ingredientes esquisitos, do tipo dente de alho...
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