Categoria: textos
Bem Casado
Por Hugo Fusco Lobo on Mar 30, 2010 | Em textos, fábulas | Enviar comentário »
Festa de casamento é sempre uma coisa muito estressante para os noivos. É a provação inicial. Se o noivado sobreviver a isso, será um casamento forte. Ou não. Pode ser que este estresse num relacionamento tão jovem o estremeça inexoravelmente. Vai saber. No fundo é mais uma questão de tradição, coisa da aristocracia que a burguesia quis imitar e agora o proletariado tenta desesperadamente reproduzir, custe o que custar, endivide quem endividar. O importante é festejar. Festejemos o estresse do mundo moderno. Por que não?!
De qualquer forma, é interessante constatar como muitas dessas tradições surgiram. Por exemplo: há muito tempo atrás, numa galáxia distante, um jovem casal resolveu aventurar-se realizando uma grande festa de casamento. A família da noiva, tendo gasto mundos de dinheiro com o dote, mal pôde contribuir com o evento. A mãe da noiva, entretanto, estava muito feliz com o casamento, afinal, a filha já tinha 19 anos. Naquele tempo já estava ficando para titia. E feliz assim, queria presentear os noivos com um presente que dinheiro nenhum pudesse comprar. Afeita como era às artes culinárias, resolveu criar uma deliciosa sobremesa para adoçar a vida do casal e deleitar todos os convidados.
Entretanto, criar um prato novo não é tarefa das mais simples e a mãe da noiva não se satisfaria com qualquer coisa, pois além do mais, a simbologia do prato criado era muito importante. Depois de muito experimentar e gastar quase todo o dinheiro restante da família em doces que foram parar na lata de lixo (na época usavam-se cestos de lixo, na verdade, tomei a liberdade de fazer esta atualização para facilitar a compreensão do texto), eis que a velha finalmente chegou a um doce que representaria a união do casal e que, ao comer este doce, os convivas estariam abençoando o casamento.
Acontece que, apesar da linda simbologia, o doce era uma bosta. Tinha gosto de cocô, literalmente. Mas ninguém sabia como dizer isso à mãe da noiva e a família já estava preocupada com a escassez de recursos que a aventura culinária da matrona estava causando. E, assim, como ninguém soube falar com a mãe da noiva, produziram-se dúzias do famigerado doce. Mais de um para cada um das centenas de convidados.
Por motivos óbvios, o doce praticamente não foi consumido na festa. Apesar de todas as explicações sobre a simbologia da exclusivíssima sobremesa criada para o casamento. A festa aproximava-se do fim e sobravam pilhas e pilhas de doce. O noivo começou a preocupar-se, pois aquele doce todo acabaria em sua nova residência e seria impossível deixar de consumi-lo, sob pena de entrar em conflito com a sogra, um dos caminhos mais curtos para o inferno.
Quando o desespero começava a tomar conta do noivo, uma idéia fantástica lhe adentrou a cachola: distribuir o doce como lembrança aos convivas na saída da festa! Do doce, ninguém gostou, mas da idéia, sim. De lá para cá o doce até melhorou, embora ainda tenha um paladar duvidoso e azede tão rápido quanto o próprio casamento. O nome veio muito depois, bolado certamente por algum publicitário: não tendo nenhuma característica melhor para ressaltar, batizou-o, talvez ironicamente, Bem Casado.
A Ratoeira
Por Hugo Fusco Lobo on Mar 8, 2010 | Em textos | Enviar comentário »
Esta é uma estória de ficção, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.
Para melhorar a comunicação na empresa e aproximar-se do perfil intelectual de seus subordinados, o Chefão resolveu começar a divulgar fábulas que ilustrariam situações vivenciadas na empresa e teriam boas lições para os empregados. Como toda empresa que se preze, a comunicação passada pelo Chefão logo circulava por toda a empresa com ares de verdade absoluta e inquestionável e era repetida incansavelmente por todos os subníveis de chefia.
Toda vez que alguém deixava (ainda que justamente) de fazer o trabalho dos outros, esta fábula era ventilada.
Discordando da visão da chefia (heresia!) e desejando comunicar-se com o Chefão, sem, entretanto, questionar diretamente seus ensinamentos, Joãzinho resolveu escrever sua própria versão da fábula (a leitura da versão original é necessária):
A Ratoeira (Versão Alternativa)
O Rato, olhando pelo buraco na parede, vê o fazendeiro e sua esposa abrindo um pacote. Pensou logo no tipo de comida que poderia haver ali. Ao descobrir que era uma ratoeira ficou aterrorizado.Correu ao pátio da fazenda advertindo a todos:
– Há uma ratoeira na casa, há uma ratoeira na casa!
– Nossa, isso é um perigo! Vamos avisar a todos. – disse a Galinha e saiu a ajudar o Rato.
Chegando ao Porco, este imediatamente lembrou:
– Uma vez prendi meu rabo em uma ratoeira, veja como ele ficou: todo enroladinho. – E saiu a espalhar o aviso.
A Vaca, que havia prendido o rabo no arame farpado há pouco tempo, também solidarizou-se e assim todos saíram a espalhar o aviso pela fazenda.
Naquela noite, ouvi-se um barulho, como o de uma ratoeira pegando sua vítima. A mulher do fazendeiro correu para ver o que havia caído na ratoeira. A cobra, que havia passado o dia a esquivar-se de todos, sempre procurando novas presas, desavisada, prendeu-se à ratoeira e não hesitou em atacar seu algoz quando este se aproximou. O resto da história vocês já conhecem.
Lições aprendidas:
1) Na próxima vez que você avistar uma cobra na fazenda, lembre-se: todos estão em perigo.
2) Mesmo que a cobra se dê mal, ainda assim os resultados de suas ações podem ser catastróficos.
3) Muito pior que a ratoeira é quem a arma, pois este não hesitará em matar a todos quando necessário.
4) Caminhos distintos podem levar ao mesmo lugar.
5) Cuidado com a Cobra à espreita.
6) Em outra fazenda, a própria Cobra colocou a ratoeira para facilitar seu trabalho de caça e acabou presa por descuido. O resto da história vocês já conhecem.
Atualmente, Joãozinho está atolado em dívidas, vivendo de pequenos bicos e gastando seu tempo livre escrevendo textos para blogs pouco lidos. Sua ex-empresa foi matéria de capa da revista Exame pela comunicação inovadora e exemplar com seus funcionários. One way, claro.
Bye, Bye, Baby
Por Hugo Fusco Lobo on Set 3, 2009 | Em textos | 7 comentários »
É sempre triste o fim de um relacionamento. É triste porque acaba o relacionamento, mas não acaba o amor. O amor é uma coisa estranha que teima em sobreviver a tudo, até ao final do relacionamento. O amor é a barata, o final do relacionamento é a bomba atômica. Mas o fato é que no final só restam frangalhos de Hiroshima e as vergonhas e humilhações da guerra.
O primeiro baque é pesado. Aquilo parecia impossível e agora vem assim, igual você já viu acontecer com os outros. Passado o susto inicial, tudo parece ser muito fácil. Uma nova rotina surge e o novo agrada por um tempo enquanto o relacionamento parece estar apenas de férias.
Então vem a falta e ela vem com tudo. Todos os hábitos adquiridos e compartilhados ao longo dos anos te fazem lembrar e te apertam o coração. Mas nesse momento o contato é impossível, Hiroshima ainda está cheia de radiação. E a radiação demora para ir embora. Parece que ela só vai quando a saudade já está bem guardada lá no fundo da caixa, quase esquecida.
É estranho lembrar dos bons momentos, dos prazeres vividos, dos desencontros que culminaram em reencontros. É estranho aquele conforto que por um tempo parecia infinito, de repente, não mais do que de repente, acabar. E aos poucos ser substituído por outro conforto. É estranho lembrar como quem lembra de um ente querido que se foi. Mas acabou. Acabou. Eu sempre vou te amar, mas serei mais feliz sem você, tenho certeza. Quem sabe um dia a gente possa se encontrar e encontrar uma nova harmonia. Uma que não nos faça mal, que nos faça feliz, mas por hora não posso com você. Não devo. Sinto muito. Quem sabe um dia um cheese cake e um pão com requeijão? Gorgonzola, pizza, lasanha e nada de agrião? Quem sabe?!
Por hora, você é só overdose. Bye, bye, lactose.