Categoria: fábulas
A Última Ceia
Por Hugo Fusco Lobo on Jul 22, 2010 | Em fábulas | Enviar comentário »
ATENÇÃO! Este texto não deve ser lido por cristãos fervorosos. A leitura destas singelas linhas levar-vos-á diretamente ao inferno, sem escalas.
Tem certeza de que quer ler isto?!
Olha lá, hein! Última chance para desistir.
A ÚLTIMA CEIA
Em face das novas descobertas arqueológicas e evidências acerca da existência de Jesus, tem-se notado muitos enganos nas histórias bíblicas que agora podem ser devidamente esclarecidos. Acredita-se que estes enganos tenham acontecido ao longo dos anos, nem sempre propositalmente, com as óbvias alterações provocadas pela transmissão oral das histórias e os diversos problemas de tradução da palavra escrita, como as mudanças culturais que transformaram o uso de diversas expressões, muitas vezes mudando completamente seu significado. Assim, fica claro que as traduções não podem, nem devem, ser apenas literais, mas devem também buscar o sentido contextualizado das expressões, buscando adequá-las ao contexto contemporâneo.
Recentes descobertas trouxeram novas e fortes evidências do que teria sido a última ceia, entretanto as conclusões são estarrecedoras. A palavra ceia, em aramaico, teria duplo sentido, significando tanto “refeição farta” quanto “seio”, o que faz absoluto sentido, haja visto que os seios são a primeira refeição de todos e que nos fartamos dele por longo tempo. Aliado a diversas evidências e relatos trazidos à luz recentemente sobre o episódio, concluiu-se que a última ceia teria sido, na verdade, o último seio de Cristo. Uma análise ulterior de alguns fatos, corrobora esta conclusão. É sabido que até o século XVI, quando houve o 3º período do Concílio de Trento, no papado de Pio IV, era permitido aos clérigos terem mulheres e manterem relações sexuais. Alguns papas tiveram várias mulheres e filhos. Assim, acredita-se que isto fosse cultural e amplamente difundido pelos exemplos de Jesus.
De volta à última ceia, Cristo, antevendo os fatos e o fim próximo de sua vida carnal, teria chamado seus apóstolos e compartilhado com eles o que possuía de mais valioso na terra, o seio de sua mulher, Maria Madalena. Isto é, claramente, uma linguagem figurada, o que aconteceu, na verdade, foi uma verdadeira orgia, como revelam os indícios arqueológicos recentemente descobertos, para surpresa dos pesquisadores, que relutaram fortemente a chegar a esta conclusão inesperada e a divulgá-la. Agindo assim, Jesus teria defendido os preceitos do amor livre, mais tarde resgatado pelos Hippies, e atacado o conceito de posse, não apenas em relação ao sexo “frágil”, o que mais tarde foi reeditado por Engels e Marx.
Ainda segundo a nova análise, este teria sido o motivo da desavença de Judas com Jesus e teria motivado-o a entregar seu mentor aos fariseus. Após ser induzido a participar do bacanal, Judas teria ficado chocado, perplexo e cheio de remorso, recusando-se, em seu íntimo, a seguir os ensinamentos de Cristo e compartilhar sua mulher com os próximos como demonstração de amor e confiança irrestritos. Mais tarde, Judas teria se enforcado, não por arrependimento de ter entregado o Messias, mas por saber que sua esposa teria seguido seus ensinamentos e amado os demais apóstolos. Coberto de vergonha e incapaz de apedrejar a mulher que amava, Judas não viu outra saída senão tirar a própria vida.
No século XVI, o comportamento incentivado por Jesus não era mais conveniente à Igreja devido à série de implicações relativas à divisão de bens que trazia e à mancha que trazia em sua imagem na sua busca incessante por expansão, quando tentava adentrar culturas que rejeitavam veementemente esta idéia. Assim, no Concílio de Trento, o texto foi convenientemente alterado para “a última ceia” e os clérigos foram proibidos de casarem-se e manterem relações sexuais. Entretanto, como era praticamente impossível fazer com que todos aceitassem a idéia de desistir do sexo, passou a ser tacitamente aceito o sexo com crianças - fato extremamente comum à época - desde que feito com absoluta discrição, pois crianças não geravam herdeiros e não expunham o patrimônio da Igreja a risco, especialmente os meninos. Pouco tempo depois, começaram a pipocar nos domínios cristãos as escolas eclesiásticas e os orfanatos cristãos.
Com o passar dos anos, devido aos claros danos à imagem da Igreja, este comportamento começou a ser combatido. Algumas medidas foram tomadas, como a transferência do controle dos orfanatos para as freiras, mais propensas a relacionarem-se entre si do que com as crianças. Até hoje, como é público e notório, o comportamento ainda não foi extirpado do seio da Igreja. Segundo estudos respeitados nas áreas de psicologia e comportamento, pessoas que sofreram abusos na infância são mais propensas a repetirem os abusos quando adultas, o que torna o ciclo vicioso e difícil de ser interrompido.
Voltando ao último seio de Cristo, é impressionante como as descobertas recentes tornam este personagem cada vez mais interessante e atraente. Seria deveras interessante ver Leonardo da Vinci pintar a “Última Ceia” à luz destas novas conclusões. Até pelo inevitável trocadilho com seu nome.
Segui Seus ensinamentos e adentrai o Reino dos Céus!
Eu avisei. ![]()
Bem Casado
Por Hugo Fusco Lobo on Mar 30, 2010 | Em textos, fábulas | Enviar comentário »
Festa de casamento é sempre uma coisa muito estressante para os noivos. É a provação inicial. Se o noivado sobreviver a isso, será um casamento forte. Ou não. Pode ser que este estresse num relacionamento tão jovem o estremeça inexoravelmente. Vai saber. No fundo é mais uma questão de tradição, coisa da aristocracia que a burguesia quis imitar e agora o proletariado tenta desesperadamente reproduzir, custe o que custar, endivide quem endividar. O importante é festejar. Festejemos o estresse do mundo moderno. Por que não?!
De qualquer forma, é interessante constatar como muitas dessas tradições surgiram. Por exemplo: há muito tempo atrás, numa galáxia distante, um jovem casal resolveu aventurar-se realizando uma grande festa de casamento. A família da noiva, tendo gasto mundos de dinheiro com o dote, mal pôde contribuir com o evento. A mãe da noiva, entretanto, estava muito feliz com o casamento, afinal, a filha já tinha 19 anos. Naquele tempo já estava ficando para titia. E feliz assim, queria presentear os noivos com um presente que dinheiro nenhum pudesse comprar. Afeita como era às artes culinárias, resolveu criar uma deliciosa sobremesa para adoçar a vida do casal e deleitar todos os convidados.
Entretanto, criar um prato novo não é tarefa das mais simples e a mãe da noiva não se satisfaria com qualquer coisa, pois além do mais, a simbologia do prato criado era muito importante. Depois de muito experimentar e gastar quase todo o dinheiro restante da família em doces que foram parar na lata de lixo (na época usavam-se cestos de lixo, na verdade, tomei a liberdade de fazer esta atualização para facilitar a compreensão do texto), eis que a velha finalmente chegou a um doce que representaria a união do casal e que, ao comer este doce, os convivas estariam abençoando o casamento.
Acontece que, apesar da linda simbologia, o doce era uma bosta. Tinha gosto de cocô, literalmente. Mas ninguém sabia como dizer isso à mãe da noiva e a família já estava preocupada com a escassez de recursos que a aventura culinária da matrona estava causando. E, assim, como ninguém soube falar com a mãe da noiva, produziram-se dúzias do famigerado doce. Mais de um para cada um das centenas de convidados.
Por motivos óbvios, o doce praticamente não foi consumido na festa. Apesar de todas as explicações sobre a simbologia da exclusivíssima sobremesa criada para o casamento. A festa aproximava-se do fim e sobravam pilhas e pilhas de doce. O noivo começou a preocupar-se, pois aquele doce todo acabaria em sua nova residência e seria impossível deixar de consumi-lo, sob pena de entrar em conflito com a sogra, um dos caminhos mais curtos para o inferno.
Quando o desespero começava a tomar conta do noivo, uma idéia fantástica lhe adentrou a cachola: distribuir o doce como lembrança aos convivas na saída da festa! Do doce, ninguém gostou, mas da idéia, sim. De lá para cá o doce até melhorou, embora ainda tenha um paladar duvidoso e azede tão rápido quanto o próprio casamento. O nome veio muito depois, bolado certamente por algum publicitário: não tendo nenhuma característica melhor para ressaltar, batizou-o, talvez ironicamente, Bem Casado.
Zerando a Lista
Por Hugo Fusco Lobo on Ago 26, 2008 | Em fábulas | 5 comentários »
Voltava eu de uma rave um dia e chutei uma lata de cerveja. Foi lindo, ela rodou no ar, quicou no chão e parou em pezinha, uns poucos metros à minha frente. Corri, trôpego, e chutei-a novamente. Como os bêbados nunca se cansam de repetir coisas sem a menor graça, chutei-a pela terceira vez. Então a lata caiu deitada e uma espuma branca escorreu lata afora. "Maldito desperdício!" pensei. De repente, a espuma começou a subir e qual não foi meu espanto ao ver surgir um gênio.
- Três chutes na lata e depois você se sensibilizou com o desperdício do líquido sagrado. Sabe, as pessoas hoje em dia não se importam mais com nada, largam as cervejas pela metade, jogam lixo nas ruas...
- Tá, tá, tá! - disse, impaciente, interrompendo a lição de moral do gênio - mas eu vou ter direito a três pedidos ou não?!
- Um só.
- Porra, um só?! E por que tão pouco?!
- Dá última vez que eu concedi mais de um, me deu um trabalhão danado. Tive que transformar água em vinho, criar um monte de peixes e o cidadão ainda quis ser ressuscitado no 3º dia após sua morte. Nossa, essa me deu um trabalhão e eu nem consegui fazer direito! Levar o homem à lua foi mais fácil. Se bem que tem muita gente que ainda não acredita... Enfim, é um trabalho ingrato. Faça logo seu pedido que eu quero voltar para minha cervejinha. E dê-se por satisfeito que poder pedir qualquer coisa é muito.
- Jura?! Qualquer coisa?!
- Qualquer coisa.
A mega-sena estava acumulada em 30 milhões, o mundo atolado em guerras, a Argentina ainda ao sul do Brasil, os argentinos ainda insistindo no Maradona, o PT no governo, o PSDB querendo voltar, lei-seca rolando. Trinta milhões e nada disso mais ia me incomodar.
Bêbado, solicitei algo muito mais importante:
- Quero zerar a lista de mulheres que eu gostaria de comer.
Amanheci eunuco. E a mega-sena acumulou de novo.