Categoria: crônicas
Monólogos a Dois
Por Hugo Fusco Lobo on Jun 18, 2008 | Em crônicas | 5 comentários »
Timing é tudo nessa vida.
No amor:
– Amor, eu estava pensando aqui... Tem tempo que a gente não viaja juntos, né?
– É.
– Lembra aquela vez que fomos passar o final de semana em Floripa? Foi tão legal! E ainda compramos as passagens baratinhas!
– Lembro.
– A gente podia dar uma olhada em passagens, né? Tá tendo tanta promoção.
– Hum-rum.
– Eu estava pensando em ir pro Nordeste desta vez. Ou então Buenos Aires. Dizem que está ótimo de ir para lá. Os preços estão super bons. O que você acha?
– Legal...
– O que você prefere? Fortaleza ou Buenos Aires?
– Não sei.
– Ou Natal? Natal é legal, hein!
– É, sim.
– Então, vamos dar uma olhadinha na internet?
– PUTA-QUE-O-PARIU!!! NÃO PERDE UM GOL DESSES, FELA-DA-PUTA!!! VAI SER RUIM ASSIM LÁ LONGE!
Em casa:
– Meu filho, venha ver o nosso limoeiro!
(...)
– Está lindo, né?
– Hum-rum.
– Tá carregadíssimo! E ainda está cheio de flores! Vai dar muito esse ano!
– Verdade.
– Você precisa experimentar a limonada que eu fiz com nossos limões!
– Mãe, você procurou o telefone daquele médico que eu te pedi?
– Olha o tamanho desse limão! Dá pra fazer um litro de suco só com ele!
– Minhas costas estão me matando, me passa logo esse telefone, por favor.
– Vou fazer uma limonada para você agora mesmo, você não pode deixar de tomar.
No trabalho:
– Chefe?
– Sim. – apenas desviando rapidamente o olhar da tela do notebook.
– Lembra daquele problema da semana passada que deixou vários terminais parados?
– hum.
– Descobrimos a origem exata e já mapeamos uma forma de impedir que aconteça novamente. Mas vamos precisar parar os terminais para fazer a atualização. Precisaremos de autorização para trabalhar no final de semana. Sábado ou domingo, o que você acha melhor?
– Olha isso, tivemos 100% de aprovação na votação de hoje! Preciso encaminhar isso para a diretoria!
Odeio Sopa
Por Rodrigo Fusco Lobo on Jun 4, 2008 | Em crônicas | 10 comentários »
Dia destes, depois de receber um já tradicional elogio por um jantar feito por mim, fiquei pensando como o mundo dá voltas e me lembrei da minha primeira experiência como cozinheiro, e como ela me mostrou que saber cozinhar, além de permitir uma alimentação melhor, é muito útil com as mulheres. Talvez seja útil para vocês saber deste caso, então vamos a ele:
Naquela época, eu morava com minha irmã. Mas nos fins de semana ela viajava com o namorado e eu ficava com a casa só para mim. E, para mim, cardápio semanal balanceado significava alternar hambúrguer, cachorro quente e misto quente ao longo dos dias da semana. E jantar caprichado era miojo.
Num sábado qualquer, acabei conhecendo numa balada uma gatinha que era estudante de gastronomia. Seguindo meus instintos básicos, passei a ser imediatamente um profundo conhecedor de gastronomia, quase um chef profissional. Comecei a falar sobre meus dotes culinários. Não chegava a ser mentira, eu apenas chamava o miojo de fusilli, o misto quente de crepe, o hambúrguer de medalhão....No final das contas, acabei conseguindo ficar com a gatinha.
Trocamos telefones, e, na quinta feira, acabamos nos falando de novo. Obviamente eu rezava para o efeito “limpante” do álcool ter feito ela esquecer os meus pseudo-dotes culinários... mas que nada. Ela tocou no assunto. Após breves momentos de pânico ao telefone, acabei achando que esta conversa de gourmet poderia ser uma boa desculpa para fazer a incauta visitar meus aposentos reais. Sustentei a estória e marcamos um jantar na minha casa, no sábado.
Desliguei o telefone e comecei a pensar em como faria. Encomendar uma comida japonesa e fingir que fui eu que fiz não era boa idéia, vai que ela pedia para eu fazer um sushi para ela ver! Se vacilar eu acabava cortando um dedo fora! Não tinha outro jeito, eu ia ter que cozinhar. Porra, tanta analfabeta por aí sabe cozinhar, não é possível que eu não conseguisse também! Comecei a caçar um site de receitas na internet. Achei um que tinha receitas que pareciam bastante sofisticadas. Já que eu ia ter que aprender, resolvi aprender algo que eu gostasse de comer. Escolhi uma panqueca de frango com canela, pois gostava de panqueca e estava classificada como receita fácil. Imprimi a receita e fui dormir.
No dia seguinte, sexta-feira, meio dia em ponto larguei o computador e fui às compras. Tinha 1 hora de almoço, deveria ser suficiente para comprar tudo e comer um sanduíche rápido. Entrei no mercado mais próximo e fui pegando os ingredientes, feliz da vida com a perspectiva de ter uma excelente noite com uma super gatinha. Peito de frango, farinha, ovos, manteiga, etc. Faltava só um ingrediente: sopa de canela. Fui na seção de sopas e não tinha a tal sopa. Que merda, minha hora de almoço ia virar hora e meia, ia ter que ir em outro mercado.
Fui num mercado mais chique desta vez, puto comigo mesmo por ter tido a infeliz idéia de ir num mercado popular para comprar ingredientes de uma receita sofisticada. Cheguei na seção de sopas... que diferença. Tinha um corredor inteiro só de sopas, acho que as dondocas tomam sopa todo dia! Mas quem disse que a porra do mercado, mesmo sendo muito mais caro, tinha a merda da sopa de canela? Nem sinal dela. Tinha sopa de tudo, menos de canela. Resolvi ir numa delicatessen super chique procurar minha sopa. Caralho, minha hora e meia de almoço ia virar duas horas. Chegando lá... nada da sopa de canela. E a atendente ainda me olhou com uma cara de que nunca tinha ouvido falar na tal sopa.
Voltei pro trabalho revoltado por morar no terceiro mundo! Aposto que em Paris deve vender esta porra de sopa até na padaria. Xinguei também o viado do dono do site, que falou que a receita era fácil de fazer, mas não contou que a porra dos ingredientes só existem em algum lugar desses que só quem é cozinheiro profissional conhece! Enquanto tentava me livrar das pendências de trabalho, ficava imaginando como ia contornar a situação. Faltava um ingrediente!
Resolvi ir tomar um café. Chegando na copa, haviam quatro mulheres da empresa lá, batendo papo (E eu preocupado porque tinha tirado 1 horinha a mais de almoço... como eu era tolinho!). Pela velocidade com que interromperam o assunto, estavam falando de homem. Como eu já tinha empatado mesmo a fofoca, resolvi ver se alguma delas sabia onde eu podia conseguir a maldita sopa. Contei a estória e elas me olharam com uma cara de quem nunca ouviu falar da tal sopa também. Cambada de suburbanas, pensei. Uma delas me perguntou da receita. Eu estava com ela dobrada no bolso da calça, usei a própria receita como lista de compras. As quatro se juntaram para ler a receita.
De repente, as quatro começaram a rir. E não paravam. Comecei a rir também, mesmo sem estar entendendo a graça. Depois de alguns segundos, comecei a entender que elas não estavam rindo comigo, estavam rindo de mim! Caralho, o que eu fiz desta vez? Será que li as instruções errado? Não é possível, li e reli várias vezes a receita. E nada das malditas pararem de rir. Duas delas já tinham até sentado para poder rir melhor, e uma terceira tava com cara de quem já está se segurando para não mijar nas calças. A quarta, que era uma gordinha, era mais simpática, e resolveu me explicar.
Abriu uma gaveta e me mostrou os talheres. Perguntou se eu sabia o nome de 3 deles. Caracas, esta balofa pensa que só porque come sorvete o dia todo, só ela sabe os nomes das coisas? Já tava ficando puto com aquele monte de histéricas rindo sem parar, mas respondi de forma bem simpática: Colher pequena, média e grande, ué! Os risos aumentaram. Uma delas caiu da cadeira. O pessoal da empresa toda já estava vindo até a copa para ver o que tava rolando. Acho até que uma delas se mijou nesta hora. Aí a gordinha simpática me explicou que a colher pequena também é conhecida como de café, a média como de chá, e a grande como de Sopa. E que a receita dizia “2 colheres de sopa de canela”, e que isso significava 2 colheres grandes de canela em pó...
Obviamente fui zoado por meses por causa deste pequeno erro de interpretação de texto, mas pelo menos canela em pó eu tinha em casa. Fiz a receita para a gatinha. Ficou horrível, absolutamente intragável. Tive a presença de espírito de bancar o honesto e dizer que era a primeira vez que eu fazia um jantar, e aproveitei para contar toda minha aventura com a “sopa”. Uns 30 minutos depois, quando ela conseguiu parar de rir, consegui voltar a dar uns beijos, e ela acabou conhecendo os aposentos reais mais tarde. Como nem sempre a sorte vai estar assim do meu lado, resolvi aprender a cozinhar. Facilita bastante o processo de “City Tour” aos aposentos reais.
Desavisadamente
Por Hugo Fusco Lobo on Mai 26, 2008 | Em crônicas | 15 comentários »
E então, quase por acaso, os lábios se tocam e as línguas se enroscam e, meu deus, é diferente! Não apenas por ser um senhor beijo, mas você adora o gosto, o cheiro, o corpo no corpo, o olho no olho. E, nessa fração de segundo, você percebe que se fodeu. Mas você está feliz, apenas torcendo para que ela sinta o mesmo.
Com medo, você torce para que ela não saiba falar, mas vocês começam a conversar e, para seu desespero, ela fala. E bem. E trata de todo e qualquer assunto com igual desenvoltura e graça. As energias parecem estar tão intensamente sintonizadas que há interferência em suas sinapses. Você perde palavras, esquece nomes, confunde teorias e, estranhamente, ela parece se divertir com sua falta de jeito.
A esta altura, as leis da física já foram distendidas, subjugadas ou mesmo esquecidas. Os conceitos de tempo, força e matéria definitivamente precisam ser revistos.
Vocês flutuam juntos até de manhã, há uma festa dentro da festa, uma orgia dos sentidos. Tudo flui tão bem que não te resta outra opção senão relevar a calcinha grande, velha e desbotada que ela estava usando, você espera que por acidente, desavisadamente.