Finesse

Parecia ter acabado de sair da prisão, depois de cumprir longa pena. A cada mulher um pouco mais arrumada que passava, interrompia a conversa, olhava a moça ostensivamente, pela frente e por trás, e suspirava. Coçava o saco com vontade de mostrar que o estava fazendo e então retomava a conversa, como se nada tivesse ocorrido. Eventualmente, tecia algum comentário antes de voltar à prosa, algo do tipo: “com uma dessas...” ou “essa aí deve dar trabalho”.

As transeuntes perdiam 1 ou 2 kg com tamanha secada. O que até caía bem em algumas.

Não raro, os que se encontravam acidentalmente em sua companhia ficavam constrangidos com tamanha indiscrição, mas ninguém repreendia o homem, pois não convém mexer com quem aparentemente acabou de cumprir uma longa pena. Mais tarde, vim a saber que nunca havia sido fichado.

Sua conversa expunha uma sabedoria peculiar:
–Um dia eu acompanhei uma amiga numa festa dessas que tem de tudo, esqueci o nome, essas que têm viado, sapatão e gente esquisita.
– GLS.
– Isso. Tava lá no meu canto, meio deslocado, aí uma mulher me abordou dizendo que também não era dessa turma. Mas eu não quis saber de conversa, não. Vai que tá lá no bem bom e a mulher resolve colocar o dedinho?! Tô fora!
– Pode ter perdido a chance de fazer um ménage.
– Que mané homenagem atroi, rapá. Pra quê?! Ficar vendo uma comer a outra e depois querer me comer também? Sei lá os brinquedinhos que esse povo usa. Não quero saber de homenagem nenhuma, não.
(...)
– Casar com mulher bonita é só dor de cabeça. Melhor uma mulher que não fique todo mundo crescendo o olho em cima.
(...)
– Agora é assim, viado pra lá, viado pra cá. “Ai, meu filhinho é gay, mas eu acho supernormal”. Não tem nada de normal, não. Filho meu não vai ser viado, não. Na minha família não tem disso.

Eu, particularmente, sempre achei muito estranho toda esta aversão à homossexualidade, associada a uma absoluta falta de respeito pelas mulheres e essa necessidade patente de demonstrar acintosamente seu gosto pelo sexo convencional. Mas o fato é que os colegas de trabalho ficaram chocados quando o jornal noticiou que havia sido assassinado por um travesti, seu amante, por ciúmes de um suposto caso que havia tido com um homem mais velho, pai de família.